quarta-feira, 28 de abril de 2021

Nomadland





Nomadland

Até 10 mil anos atrás, os homens eram nômades. Viviam em um determinado lugar, coletavam o que estava ao alcance e, quando esgotavam os recursos, mudavam-se. Caminhavam pelo mundo. Após algum tempo, até podiam voltar para o local inicial quando este já se tinha recuperado. Havia tempo para a natureza restabelecer-se.

Aí, veio a revolução agrícola. Os homens puderam fixar-se na terra; passaram de seres da natureza para donos dela. A partir daí, não retiravam do ambiente só o que precisavam para viver; começaram a acumular. No século XVIII, com a revolução industrial, alguns homens passaram a explorar cada vez mais o ambiente e os seres que nele vivem, inclusive outros homens.

O filme vencedor do Oscar 2021, NOMADLAND, de Chloé Zhao, mostra a vida de nômades modernos que, diferentes daqueles de mais de 10 mil anos, são os donos da natureza, mas sem a natureza. A história mostra como uma indústria na zona rural de Nevada (EUA), após um colapso econômico, deixa todos os habitantes sem terem um lugar para viver, mesmo aqueles que trabalharam a vida toda.

O filme apresenta nômades reais como Linda May, Swankie e Bob Wells. Sim, isso está acontecendo, especialmente com pessoas de mais de 60 anos que não têm a segurança de uma velhice em paz.

Há um diálogo que achei muito interessante; quando uma criança pergunta a Fern (Frances McDormand): - Você é uma sem-teto? E Fern responde: - Não, só não tenho para onde voltar.

Aliás, Fern, em português, é samambaia, planta bastante primitiva que já vivia com os outros nômades há mais de 10 mil anos atrás e que, também, é chamada de feto. São plantas muito legais, mas não produzem flores, frutos ou sementes...

Se nos EUA, um dos países mais ricos do mundo, isso acontece, imaginem no Brasil, principalmente após as reformas trabalhistas ou "destruição dos direitos dos trabalhadores".

Seremos todos nômades?

E vale lembrar que os nômades antigos podiam parar em praticamente qualquer lugar, pois o chão, assim como a natureza, era de todos e, hoje, não existe chão sem um dono.

Assucena Tupiassú

 

quarta-feira, 18 de março de 2020

Aprendendo a andar de skate em zona de guerra (se você for uma menina)




Aprendendo a andar de skate numa zona de guerra (se você for uma menina) – Learning to Skateboard in a Warzone (If You're a Girl) — dirigido por Carol Dysinger, Reino Unido, 2019.
O curta de 39 minutos, vencedor do Oscar na categoria Curta Documentário. “O filme é uma declaração de amor ao Afeganistão” segundo a diretora. Foi filmado durante um ano e segue o progresso de um grupo de meninas no projeto de inclusão e educação para meninas Skateistan, em Cabul, no Afeganistão.
É um retrato diferente das meninas que vivem no Afeganistão, que sempre são vitimizadas nos filmes, não diferente da vida real. Neste filme elas aparecem sorrindo, aprendendo, se superando, sonhando.
Como o filme é rodado ao longo de um ano, as entradas das estações são marcadas por flores, especialmente as rosas, lindas rosas. Muitíssimo bem escolhida a espécie, pois ela está inserida na história. Quando a professora fala para as alunas que cada uma delas tem que ser forte, a rosa estava lá como exemplo, que sem deixar o feminino de lado é forte, tão forte que tem acúleo (falso espinho) para se proteger, ser resistente. É isso que as meninas no Afeganistão precisam, ser como as rosas, se proteger, ter firmeza sem perder a beleza.
No filme quando as meninas são questionadas o que é ter coragem e elas respondem “é vir para escolas” “é ler um livro”. É preciso ter coragem para andar de skate, aliás um trabalho bem bacana feito pela ONG  Skateistan, organização sem fins lucrativos, que define-se, no site oficial, como a “combinação do skateboarding com uma educação criativa e assente nas artes, que dá às crianças a oportunidade de se tornarem líderes para um mundo melhor”, assim como as rosas assumem a liderança entre as floríferas.
Orlando Von Einsiedel, produtor executivo do filme o descreve como “bonito retrato de esperança, sonhos e superação de medos”.
São 39 minutos, que você pode assistir no próprio computador ou até no smartphone, nem precisa sair de casa. Um tempinho para poesia!

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

1917



1917 – Inglaterra e EUA, 2019 - Direção: Sam Mendes, com George MacKay, Dean-Charles Chapman, Mark Strong

Alguns podem estranhar estar um filme de guerra neste blog que fala de jardins e plantas no cinema, mas não se trata de um filme de guerra e sim de homens, mostrado em sequencias perfeitas, tecnicamente aclamado por qualquer cinéfilo e ele vai muito além... Em quatro momentos as plantas falam coisas belíssimas sobre o filme.
O início, um “travelling”, que na terminologia de cinema e audiovisual, é todo movimento de câmara em que esta realmente se desloca no espaço, de um lindo campo de flores “daninhas” que como bem disse Victor Hugo “não existe erva-daninha e homem mau, há sim mau cultivador”.
A beleza de tantas flores, que tem ao fundo um grupo de arvores e à frente dois soldados ingleses, Will Schofield (George Mackay) e Blake (Dean-Charles Chapman), dormindo, encostados à sombra de uma árvore, marca a abertura do filme.
Uma ordem os acorda, de que eles deveriam cruzar o território inimigo e entregar uma mensagem que poderia salvar 1.600 homens, entre eles o irmão de Blake.
A câmera segue os protagonistas e o diretor Sam Mendes mostra o humano desses soldados com atos heroicos não para ganhar medalhas e sim por dignidade. Voltando as flores, há uma cena muito bonita entre os horrores, quando eles se deparam entre as ruínas de uma casa com várias cerejeiras em flor, que Blake conhecia tão bem dos tempos de infância, uma cena perfeita que mostra o excelente trabalho de fotografia de Roger Deakins.
Segue o filme com panoramas que mostram cavalos e homens mortos, explosões, tiros, mas tudo isso fica em segundo plano, pois Mendes consegue através do altruísmo e humanidade mostrar beleza no horror.
Quando já quase desistindo de sua missão Will Schofield é acordado com pétalas de cerejeiras, o que pela crença japonesa significa sorte. É como se a beleza tivesse dado suporte para que ele aguentasse até cumprir sua missão. Um verdadeiro hanami (apreciar as flores) em um filme de guerra, não é filme de guerra!
Ao final, assim como no início, Schofield descansa encostado em uma árvore, após ter cumprido sua missão ao chegar num arvoredo, porém com um olhar diferente, um olhar questionador – Para quê essa guerra?




domingo, 3 de novembro de 2019

Maria do Caritó



Maria do Caritó – Brasil – 2019. Direção de João Paulo Jabur, com Lilia Cabral, Gustavo Vaz, Fernando Sampaio, Juliana Carneiro da Cunha, Kelzy Ecard, Fernado Neves entre outros.
Baseado no roteiro original da peça teatral homônima de Newton Moreno, também encenada por Lilia. Para o cinema Newton contou com a colaboração de José Carvalho no roteiro.
Caritó é uma pequena prateleira no alto da parede onde se coloca carretel de linha, pente, pedaço de fumo. Diz-se também da moça solteirona que foi colocada na prateleira.
O filme foi rodado em Piacatuba – MG, de onde se obtêm lindíssimas imagens, quando se mistura muitas arvores e palmeiras o verde todo se junta e quase nem conseguimos identificar quem é quem na família vegetal, mas é muito gostoso de ver. A única espécie florida que aparece é um lindo Flamboyant vermelho. A história se passa em 13 junho – dia de Santo Antônio, o casamenteiro – e nos dias seguintes, mas o Flamboyant floresce mais pro fim do ano, o que me fez perguntar quando e onde o filme foi rodado. Realmente foi filmado em outubro e novembro – fica aqui uma licença poética para o Flamboyant florescer em junho. Foi rodado em Piacatuba, pois é perto de Cataguazes onde há um polo de cinema, o que facilita muito as filmagens. Minas sempre na vanguarda né?!
As atrizes e atores estão maravilhosos, Lilia como sempre dá um show, assim como Juliana Carneiro da Cunha, Kelzy Ecard e Fernando Sampaio, que mesmo sem falar uma única palavra transmite tanta poesia, que o coração flutua.
Na história, Maria (Lilia) é considerada santa, pois é atribuído a ela alguns milagres e pelo fato de seu pai a ter prometido em casamento ao Santo Djalminha, após supostamente Maria ter quase morrido ao nascer, porém ela tem calores sob a saia e não quer se casar com santo algum, quer mesmo um amor de verdade. Anualmente faz promessas à Santo Antônio com a ajuda de Fininha (Kelzy Ecard), porém a idade está passando, ela já na menopausa passa a procurar, quase desesperadamente, alguém para casar. Após uma cartomante falar que seu amor é de fora da cidade e com a chegada de um circo ela tem certeza que o “galão” Anatoli (Gustavo Vaz) é esse amor e ela vai à luta por esse amor até descobrir algo muito melhor.
Poesia é o que não falta no filme, só que uma poesia que põe o dedo na ferida, aborda questões importantes como a falta de escrúpulos de muitos políticos, a exploração da fé, manipulação da população e submissão feminina, isso é uma característica do dramaturgo Newton Moreno, dizer coisas que doem de uma maneira suave, poética e cômica, às vezes você só se dá conta das questões abordadas depois de um tempo, tenho cá comigo que alguns até não percebem ou esquecem. No fim você sai do cinema sorrindo e com esperança.
Este é um filme que vi, gostei e recomendo muito!

quarta-feira, 10 de julho de 2019

A mula



A Mula, 2019 - EUA, direção de Clint Eastwood, com Clint Eastwood, Bradley Cooper, Laurence Fishburne, Andy Garcia entre outros.

Não é o primeiro filme que Clint Eastwood aparece cuidando de plantas ou brigando com alguém que maltrata as mudinhas.
Em A Mula, no início do filme Clinton aparece cultivando Hemerocalis, mais conhecidos como lírios (plantas com muitos híbridos), com toda pompa que os cultivadores/produtores tinham. Ganhava prêmios e reconhecimento o que era muito comum em festivais de plantas. Sua relação com os lírios era tão forte que sua família é deixada em segundo plano. Porém com a modernização, tecnologia e a venda de flores pela internet muitos perdem espaço, dinheiro e até respeito, até o Clint. Ele envelhece e se vê sem flores, família e amor próprio.
É nesse momento que recebe um convite para transportar drogas, como mula.
O dinheiro fácil, a chance de resgatar a família e o respeito dos amigos faz com que ele continue transportando, sem muita consciência ele faz como se fosse uma brincadeira o que elimina qualquer chance de desconfiança policial.
Trata-se de uma história real de Leo Sharp, que havia recebido uma série de honras por seus trabalhos como paisagista, floristas, assim como por ter lutado na Segunda Guerra Mundial. Porém sua fama mesmo veio aos 90 anos quando foi preso por portar o equivalente a três milhões de dólares em cocaína no seu carro, uma picape velha, no Michigan.
As interpretações são leves, a trilha sonora bem escolhida e a direção, como sempre muito boa.
Fato é que, ver um senhor de 88 anos interpretando e dirigindo um filme tão plenamente é de tirar o chapéu!

terça-feira, 9 de julho de 2019

Amanda





Amanda - “Amanda” França, 2018, de Mikhaël Hers, com Vincent Lacoste, Isaura Multrier, Stacy Martin.

Amanda é um dos poucos filmes franceses, parisienses, que não têm como uma das personagens principais a própria Paris. A figura da Torre Eiffel, nas filmagens, aparece em forma de brinquedo que protege o buraco onde a bola deve ser encaçapada, sem Champs Elisee, nem Notre Dame. Podemos dizer, um filme diferente, mas mantendo o modo de fazer, mostrando uma boa história filmada de modo simples.
O filme mostra pessoas dormindo na rua, massacres contra a população, discussões na rua entre culturas diferentes, os “bicos” trabalhos informais realizados por todos, especialmente os jovens. Um certo tom de desilusão, não somos mais os mesmos. Paris não é mais a mesma.

Nosso protagonista, o galã Vincent Lacoste representa David, os galãs franceses são pessoas normais, sem físicos exuberantes e rostos desenhados, gente como a gente. David é um podador de árvores que é chamado quando a Prefeitura necessita de seu trabalho. Em São Paulo ele seria chamado diariamente, em Paris, com a arborização urbana muito bem planejada, deve sobrar tempo, pois David aparece podando também cercas vivas de arbustos, bem típico de jardins franceses! E ponto positivo ao mostrar os equipamentos de proteção individual muito bem usados.
Outra cena muito bonita: no orfanato, os filhos de pessoas mortas nos ataques praticando jardinagem, sem dúvida uma atividade para amenizar a dor.
A história mostra nosso herói com 24 anos, ele não tem muitas ambições, vive de podar arvores e alugar apartamentos tipo Booking. Quando sua irmã mais velha morre em um ataque terrorista, David se vê na condição de tutor de sua sobrinha de 7 anos, Amanda. A relação dos dois é construída com muita delicadeza e aprendizado de ambos os lados. A cena final mostra otimismo, numa belíssima interpretação de Isaure Multrier, ao citar “Elvis saiu do prédio” (expressão que representa que tudo está perdido) percebe que há chances ainda, seu sorriso final mostra esperança.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Sonhos




Sonhos (Yume) Japão/EUA - 1990, com direção de Akira Kurosawa 
Uma verdadeira obra prima!
Kurosawa nos traz oito sonhos, como oito capítulos quase independentes com as mais belas fotografias e muita poesia. A linha que conduz o filme passa pela natureza e sua necessidade de cuidado e respeito, os riscos das guerras, o amor, a experiência e a simplicidade.
O filme todo é muito significativo e traz um pouco do desencanto do diretor com a humanidade. A exceção se faz no último sonho que traz a esperança através das lições de um aldeão centenário que vê o mundo de uma forma bem simples, como deve ser. É de chorar de tanta beleza.
Poderia escrever durante horas sobre esse filme, mas vou me ater a um único sonho, o Pomar de Pessegueiros, no qual está concentrada uma das mais lindas cenas que já vi em filmes. Lá um menino sai correndo atrás de algo que o leva aos pessegueiros e lá ele encontra o Imperador japonês e seus súditos, eles estão muito bravos, pois todo o pomar foi cortado e não haveria flores nem dança dos espíritos das árvores.
O menino fica muito triste ao perceber que não haverá a queda das pétalas, a dança das flores, o hanami e ele chora. A imperatriz intercede e diz que eles deveriam dançar pela última vez para o menino, afinal ele foi contra o corte das árvores. Mas o imperador se recusa dizendo que o menino só queria era comer os pêssegos, o garoto responde que não, os pêssegos podem ser comprados em qualquer supermercado, mas o hanami não. Então eles se comovem com a criança e dançam. A princípio musica tradicionalmente japonesa, depois a clássica ocidental. Tudo é lindo, a disposição em quatro patamares representando a hierarquia do império japonês, as roupas, a maquiagem, as cores. O sorriso do menino recebendo as pétalas dos pessegueiros em seu rosto é fantástico. No final aparecem novamente todas as arvores cortadas e o menino corre e encontra uma única muda brotando. É muita beleza para um filme só.

Vale muito a pena ver esse filme! Um dos melhores filmes em minha opinião.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Nise da Silveira - O coração da loucura


Nise da Silveira – O coração da Loucura, Brasil - 2015, direção de Roberto Berliner.

Excelente trabalho de Berliner e de toda equipe, com excelentes atores e a magnifica atuação de Glória Pires.
Não poderia deixar de escrever sobre esse filme, afinal Nise está entre meus ícones de sabedoria. Desde que comecei a juntar jardinagem e saúde mental tenho estudado e me encantado com a vida dessa psiquiatra da qual compartilho os pensamentos. Segundo ela “Plantar a semente, acompanhar o desenvolvimento do vegetal, dele cuidar com amor, é o princípio que rege a jardinagem como atividade terapêutica. Está cientificamente provado que o relacionamento afetivo do esquizofrênico com o vegetal e com o animal se tornam “linhas de vida” que podem contribuir muito para a retomada de contato com o mundo real.
O filme mostra apenas uma parte da vida da Dra. Nise, quando ela volta a trabalhar em um manicômio e propõe novas técnicas, bem diferentes dos eletrochoques e da lobotomia, que eram muito praticados na época. No filme o assunto principal é a arte, o que foi realmente seu foco principal de estudo, mas falando dos jardins...
A primeira frase de um paciente “cliente, como ela chamava” foi – Uma semente não pode ser jogada no lixo, e assim ele juntava todas que encontrava nas lixeiras. Outra parte muito bonita, são os pacientes pintando nos jardins e mais ainda passeando livremente pelos bosques. Isso sim é tratamento, pelo menos em minha opinião e experiência.

Vale muito a pena conhecer essa história!

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Fogo no mar

Fogo no Mar, (Fuocoammare) – Itália, 2016 de Gianfranco Rosi.

Esse belíssimo documentário traz à tona um tema mais que atual, os refugiados. Rosi fez um excelente trabalho e o filme ganhou o prêmio Urso de Ouro em Berlim e abriu o festival “É tudo verdade” de documentários em São Paulo.
A câmera acompanha os refugiados, em estado total de miséria, algumas cenas são muito difíceis de ver, como um porão de barco com muitos cadáveres, também segue alguns moradores, como o médico que não consegue dormir de tanto ver vítimas em imenso sofrimento e mortos, um casal, um radialista e dois meninos.
O filme começa com um menino de 12 anos, Samuele Pucillo, procurando um jeito de subir em um lindo pinheiro, sua intenção era tirar um galho para fazer um estilingue para caçar passarinhos e furar cactos, e ele faz exatamente isso no decorrer do filme. Num determinado ponto ele começa a usar óculos, como se uma lente fosse necessária para uma nova realidade. Não sei se faço uma boa analogia, mas uma pequena cidade na Itália (Lampedusa) de 6 mil habitantes que vira uma porta de entrada para aproximadamente 400 mil pessoas refugiadas, sendo que por volta de 15 mil morreram na tentativa de chegar a Europa, realmente é necessário ajustar os olhos, colocar uma lente para aguentar tanta tristeza.
A mesma tristeza o garoto relata em uma consulta médica, apesar de clinicamente não encontrado nada de errado, o jovem diz sentir uma falta de ar e um aperto no peito e no coração, um mal-estar. Impossível não sentir isso com toda essa tragédia.
O filme não mostra lindos jardins, mas ao final o pequeno Samuele vai até o mesmo pinheiro e assoviando se comunica com um passarinho e da mesma arvore que ele fez o estilingue, ele retira um pequeno pedaço de galho que usa para acariciar o passarinho.
O filme é pesado, como o tema, mas é feito com tanta genialidade que vale muito a pena ver.

domingo, 27 de março de 2016

PERDIDO EM MARTE


Perdido em Marte (The Martian) USA - 2015, dirigido por Ridley Scott, do romance escrito por Andy Weir.
Desde Blade Runner que virei fã de Ridley Scott, é lógico que nem todos os filmes eu adorei, mas o considero um grande diretor principalmente nos  de ficções científicas.
No filme, o astronauta Mark Watney (Matt Damon) está com sua equipe numa missão em Marte quando eles são atingidos por uma severa tempestade. Mark é ferido por destroços, é dado como morto e abandonado. Após um tempo ele acorda sozinho no planeta vermelho.
O que me motivou a escrever sobre esse filme não foram as plantas raras ou os belos jardins, mas a alegria de saber que para sobreviver, com suprimentos escassos ele é obrigado a plantar em Marte e isso só possível porque ele é botânico.
O filme é recheado de pequenas cenas cômicas e numa delas alguém da equipe diz que com a ausência de Mark sobraria espaço na nave e ele não faria falta, afinal era simplesmente um jardineiro. E se não fosse provavelmente teria morrido.

A felicidade que o personagem e eu sentimos quando os brotos de batatas começaram a crescer nos fez sorrir. Sim, ele consegue plantar e comer as batatas, fez uma plantação sustentável usando o habitat pressurizado para criar as condições ideais e solo marciano para o cultivo. Estudos mineralógicos, como o do Opportunity, que chegou em Marte em 2004 e está funcionando até hoje, mostram que o solo lá é rico em minerais, suficiente  para um cultivo pouco exigente, como o de batatas. Bem, mas para fixar o nitrogênio eram necessárias as bactérias, mas isso nós temos de sobra e eliminamos uma boa parte nas fezes. Pronto a fertilização está feita e as batatas cresceram.
Particularmente eu gostei do filme, não é um Blade Runner, mas é bem melhor que os últimos. 

domingo, 20 de março de 2016

Nossa irmã mais nova

Nossa irmã mais nova – “Umimachi Diary”, Japão – 2014, direção de Hirokazu Koreeda.
Um filme que mostra beleza e sutileza. Além do excelente trabalho das atrizes que interpretam as quatro irmãs, o filme conta uma linda história familiar sem grandes conflitos, mas o melhor do simples.
As três irmãs – Sachi, Yoshino e Chika – vivem juntas em uma grande, velha e bela casa, com um lindo jardim. Quando o pai delas, ausente há muitos anos morre, elas conhecem Suzu, uma meia irmã que vai morar com elas tornando o cotidiano das quatro irmãs mais bonito. Aceitando que o certo e o errado da vida não são para serem julgados, mas vividos e aproveitados, tal qual uma flor de cerejeira, tão bela e efêmera, que não pode ser desperdiçada e sim apreciada.
Os movimentos de câmara são deliciosos e a fotografia digna de ser contemplada, dá vontade de rever o filme.
Bem, mas vamos ao que mais gosto de escrever. Logo nas primeiras cenas aparecem cicas e fênixes e na sequencia várias plantas asiáticas utilizadas no Brasil, em certos momentos poderíamos até dizer que algumas cenas parecem terem sido filmadas aqui. As estações são bem marcadas com arvores com cores típicas do outono, em especial áceres e plátanos, cenas com folhas caindo e uma camada de folhas no chão. A primavera é marcada pela beleza das cerejeiras, existe uma sequência maravilhosa filmada em um túnel dessas árvores. É de tirar o fôlego. Aparecem ainda os resedás e hortênsias para dar mais charme ao filme.
Se me perguntarem o que mais gosto no filme, certamente vou dizer da beleza das plantas e jardins e o que foi dito sobre o assunto - que presente é estar vivo para apreciar a beleza da florada das cerejeiras.

Vale a pena ver!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Boyhood

Boyhood – EUA, 2014 – Dirigido por Richard Linklater
Com Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke etc.
O filme começa com uma cena de Mason (Ellar Coltrane) deitado no gramado, um belo gramado, diga-se de passagem, aliás, esse filme não conta com muitos campos floridos ou belíssimos jardins, são os gramados e campos com outras gramíneas que mais representam o reino vegetal do filme, mas esse filme vale a pena assistir não pelos jardins, mas pela composição das cenas. O filme conta a história da vida do menino durante um período de doze anos.
Foi filmado durante dose anos, o grupo se encontravas por alguns poucos dias por ano desde que o personagem principal Mason tinha seis anos, até quando ele completa 18 anos. Tudo feito com muita simplicidade e beleza, imagino filmar uma sequencia em 3 ou 4 dias, isso é incrível e permanência dos 12 anos, Linklater nos dá um presente. Mostra a relação de Mason com os pais separados e amigos e a modificação do jovem nesse período.
Os atores fazem o trabalho direitinho e o diretor nem se fala.

Bem, eu gostei muito, nada de efeitos, grandes dramas, mas a poesia do dia a dia.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A filha do pai


A filha do pai (La fille du puisatier) – França, 2012 , direção de Daniel Auteuil
Patricia (Astrid Bergès-Frisbey), a filha mais velha do poceiro Pascal Amoretti (Daniel Auteuil), um homem trabalhador, honrado, mas pobre, conhece seu grande amor Jacques(Nicolas Duvauchelle), piloto da aeronáutica, bonito, charmoso e rico, às vésperas da 2ª Guerra Mundial, em 1939. Patrícia engravida de Jacques, mas ele é mandando para guerra, sem poder ao menos se despedir.
Tudo isso é filmado na Provence, que em minha opinião, é a região mais linda da França. Para quem fotografa é uma maravilha, você praticamente só clica, a região se enquadra. Não precisa escolher o quadro, tudo está pronto para ser filmado e fotografado, o ambiente pitoresco, as colinas, os campos de lavandas. É assim no filme, aproveitando muito bem o regionalismo típico da sua Provence. Chamou-me atenção, que neste filme não aparecem a lavandas, que é a flor símbolo da região. O filme todo mostra o verde maravilhoso e as tonalidades terra, essas duas cores ocupam 99 por cento do filme, duas exceções para o lindo campo de papoulas no inicio do filme e o amarelo de cousas. Também a beleza dos troncos dos plátanos e a leveza nos campos de gramíneas.
Confesso que sou super fã de Daniel Auteuil, que para mim é o maior ator do cinema francês dos últimos tempos. Aqui ele está maravilhoso como ator e ainda faz a direção.

“A Filha do Pai” é um filme agradável, principalmente para os românticos, e  nos dá a oportunidade apreciar a luz, os matizes e bonitos lugares, que no passado inspiraram os impressionistas. Tudo isso junto com a boa técnica, trilha sonora bem escolhida e principalmente a fotografia fazem esse filme muito recomendado.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

De repente é amor


De repente é amor “A Lot Like Love” Dirigido por Nigel Cole – EUA , 2005.
Oliver (Ashton Kutcher) observa e a fotografa Emily (Amanda Peet) durante uma briga dela com o namorado, eles se conhecem melhor no voo que cruza os Estados Unidos. Ele, um moço certinho e carinhoso que procura seguir um cronograma para sua vida, com sucesso profissional, encontrar o amor de sua vida, casar e ter filhos. Ela é espontânea e indisciplinada, sem fazer planos para o futuro. Oliver e Emily sentem atração um pelo outro, mas eles são muito diferentes. Durante os sete anos seguintes eles se encontram em momentos aleatórios e esporádicos, até que se encontram novamente 7 anos depois.

Em um dos encontros Oliver resolve fazer uma serenata para Emily no jardim do prédio que ela mora, aí vem a parte boa, o jardim é uma graça com várias espécies de musáceas (bananeiras, helicônias) algumas bromélias, orquídeas, também azaleias, primaveras etc. O filme é uma comédia romântica para aqueles dias que você está cansado e quer relaxar um pouco, mas vale a pena pelo jardim e pela beleza do casal protagonista.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Margareth Mee e a Flor da Lua


Margareth Mee e a flor da lua – Brasil, direção: Malu de Matino – 2013.
É um belíssimo documentário que retrata a passagem da ilustradora Margareth Mee pelo Brasil, dificilmente encontramos alguém que desenhe com tanta precisão e poesia as plantas brasileiras. Ela viveu no Brasil por 36 anos e realizou 15 expedições à Floresta Amazônica, já em 1956 começou a chamar a atenção para a preservação da Amazônia brasileira.
O respeito que ela tinha pelo Meio Ambiente foi retratado com muita poesia no filme. A sua busca por desenhar a flor do Strophocactus wittii ou  Selenicereus witti , um cacto nativo da Amazônia, que vive na parte mais alta das árvores e suas flores desabrocham somente a noite e muito rapidamente em apenas uma noite por ano, é linda.
Suas ilustrações, muitas de bromélias, são até hoje, uma fonte preciosa de pesquisa para a botânica, a maioria está no Instituto de Botânica, em São Paulo.

Filme recomendado para quem gosta de flores, poesia, natureza e respeito. Eu gosto!

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Attila Marcel

Attila Marcel - França (2013) – Direção Sylvain Chomet
A trama gira em torno de Paul (Guillaume Gouix), que quando tinha dois anos de idade viu seus pais morreram e trauma lhe fez perder a fala. Agora por volta de 30 anos Paul é pianista e mora com duas tias aristocratas. Sua vida é uma grande rotina até que entra no jardim da Madame Proust (Anne Le Ny), sua vizinha excêntrica e divertida que vai ajudá-lo a começar a viver. Para tanto ela conta com a ajuda de alguns chás de aspargos e cogumelos cultivados por ela mesma no seu apartamento em Paris.
Duas cenas me chamaram muita atenção, a primeira uma grande castanheira presente em um parque perto da casa de Paul, linda no meio da praça, onde as crianças brincam e aproveitam sua sombra. A mesma mais tarde será cortada, uma pena, pois do modo que aparecem os pedaços cortados não existe nada que justifique o corte, mas sim um tratamento na árvore. Aparecem pessoas contrárias ao corte, típicas francesas.

A segunda e mais significativa, que me fez suspirar, foi o apartamento transformado em jardim, onde eram cultivados muitos legumes e flores, simplesmente lindo. É o máximo, os espelhos pendurados para que o sol seja refletido para todos os cantos, afinal hortaliças precisam de muita luz. E é exatamente lá que Paul quebra a dormência e se lança para vida, como uma semente.
O filme é cheio de metáforas e poesia, vale a pena ver!

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Magia ao Luar


Magia ao Luar – “Magic in the Moonlight” – EUA  – Direção Woody Allen , 2014

Stanley (Colin Firth) é um mágico inglês prepotente, egocêntrico e com ar de superioridade que é o álter ego de um mágico chinês Chung Ling Soo com convicção que o mundo é empírico e racional. É considerado um dos melhores mágicos, pois seus números são truques bem construídos. Seu amigo de longos anos Howard Burkan (Simon McBurney), também mágico, o procura para que ele desmascare uma garota chamada Sophie (Emma Stone) que se diz uma médium. Stanley aceita e viaja até o sul da França e passa a tentar a todo custo desvendar os mistérios que envolvem sua mediunidade, com a aproximação ele acaba por entrar em outra magia.
Acho Woody Allen meio sarcástico e intelectual, e muitas vezes fascinante. No filme “Magia ao luar”, uma doce comédia romântica traz dois atores de tirar o chapéu, Colin Firth e Emma Stone, além das boas risadas é o tipo de filme de te deixa um tempo sorrindo. Adoro a participação das plantas nos filmes de Woody Allen, a composição é perfeita. Os jardins mostrados no filme são de tirar o fôlego, caramanchões de glicínias e de rosas, canteiros lindos de íris, participações de agapanthus e primaveras dando um show. Vale a pena assistir nem que seja só pela fotografia. Allen usa a proporção de tela de 2.35:1, conhecida como janela panorâmica ou anamórfica, que deixa o filme mais bonito, dá vontade de entrar no jardim.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave) EUA, 2013 – Dirigido por Steve McQueen

        
Baseado em uma história real, o ator Chiwetel Ejiofor vive Solomon Northup, que era um nortista estadunidense negro, violinista, livre e letrado, em 1841. As primeiras cenas o mostram em seu cotidiano com a família sendo respeitado por todos da sociedade, porém é enganado, sequestrado e levado para Geórgia e aí começam então os 12 anos de agruras do título.
Além de Ejiofor que fez uma atuação brilhante o elenco é de primeira, inclui Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Paul Giamatti, Lupita Nyong'o e Brad Pitt entre outros. O filme é comovente em todos os momentos e a direção de arte é impecável.
A direção é tão boa que a paisagem diz tudo do filme a começar pelo corte de vegetação. Mesmo não sendo belíssimos exemplares, ver uma árvore cair é sempre muito triste, mas o mais fantástico de tudo é o uso abundante da barba-de-velho (Tillandsia usneoides), a mesma espécie que Tarantino usou no filme Django Livre. Em ambos os filmes a planta mostra a tristeza, como se a paisagem chorasse pelas atrocidades mostradas nas cenas, e é incrível a presença desta planta em quase todos os momentos.
Apesar de o filme ser americano a barba-de-velho é uma espécie brasileira, presente na Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, em todas as formações florestais das matas brasileiras, mas ocorre em vários outros países. É uma planta utilizada para fazer biomonitoramento atmosférico, ou seja, para estudar as concentrações de metais pesados no ar.
Saindo da biologia e voltando ao filme, boa história, elenco maravilhoso, direção brilhante... Pegue seu lenço e corra para o cinema, esta é minha sugestão.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Philomena - Reino Unido, EUA, França, 2013 de Stephen Frears

Incrível como a paisagem conta a história deste filme, aliás, muito bem contada, as locações e a fotografia estão em total sintonia. Grande história e grandes interpretações.
Baseado numa história real, ocorrida na Irlanda dos anos 1950, "Philomena", conta a história  de Philomena Lee (Judi Dench, indicada ao Oscar de melhor atriz - desta vez se ela ganhar, não se surpreenderá) em busca de seu filho dado em adoção aos 3 anos de idade. Ainda jovem e sem a mínima educação sexual, ela engravida e seu pai a interna num convento, onde ela terá seu bebê, um menino, não sem antes sofrer muito no difícil parto. Ela o adora, mesmo não tendo a oportunidade de conviver como mãe dele. Com aproximadamente 3 anos de idade ele é “vendido” pelas freiras do convento para uma família americana. Os anos se passam e ela não aguenta mais guardar este segredo e conta para sua filha, que vai procurar alguém para escrever esta história e ajudar sua mãe. Isto se dará com o jornalista Martin (Steve Coogan) e os dois sairão à procura, ela de seu filho e ele de uma história para escrever.
Quanto à paisagem, temos três cidades diferentes; na Inglaterra os jardins querem uma aproximação aos jardins naturais, sem muita simetria nem topiaria e com grandes gramados. É lá que começa a ser contada a história de Philomena. De lá ela e Martin viajam para Irlanda, lá, na primeira parte, é outono, com suas árvores de folhas amarelas e vermelhas cujo colorido, para mim, não simboliza alegria e sim esperança. Já podemos ver forrações e gramados bem secos e no pequeno cemitério as ervas daninhas dominando o local – nada por acaso. Terceira locação, Washington, com toda sua arborização - vale lembrar que a capital dos EUA tem 170m² de áreas verdes por habitante, só para se ter uma ideia, São Paulo tem pouco mais de 4m²/hab. Lá também aparecem os típicos jardins americanos, quase sempre com a bandeira americana à mostra. Na volta à Irlanda as folhas amarelas já haviam caído, assim como a esperança de Philomena, desta vez todo gelo e frio enfatizarão o sofrimento, a angústia e a decepção. Ao chegar ao antigo convento eles param o carro sobre um lindo chorão - com este nome nem preciso falar nada - e além disso, é desta árvore que é retirado o princípio ativo para uma grande parte dos medicamentos para aliviar a dor, o ácido acetil salicílico que vem de Salix alba ou Salix babilônica, que é o nome popular daquela árvore. E uma frase dita pelo jornalista Martin fecha com chave de ouro: “_Vocês poderiam pelo menos tirar as ervas daninhas que encobrem os túmulos das jovens e seus bebês que morreram aqui.”